por Vinícius Neves No mês de junho é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, mas, aqui no Guará há espaços onde isso é celebrado o ano todo, o tempo inteiro. Um desses exemplos é o Vale Lounge Bar, que fica…

por Vinícius Neves
No mês de junho é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, mas, aqui no Guará há espaços onde isso é celebrado o ano todo, o tempo inteiro. Um desses exemplos é o Vale Lounge Bar, que fica no Polo de Moda do Guará II. A sigla da comunidade, que já foi conhecida apenas como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), passou por evoluções ao longo do tempo aepassou a abranger também pessoas bissexuais, transsexuais, transgêneros e travestis, queers (ou questionantes), intersexo, agênero, assexuais ou arromânticos. Alguns dos termos podem não ser familiares para muitos, mas a proposta do Vale Lounge Bar e de toda a equipe e frequentadores é promover o acesso e divulgação sobre a comunidade de uma forma acolhedora para todos aqueles que ainda encontram dificuldades em encontrar aceitação por serem, simplesmente, quem elas realmente são. E a maior ferramenta para se criar uma sociedade mais respeitosa e justa segue sendo a informação, a escuta, a cultura e a educação.

Inicialmente idealizada para ser inaugurada em Taguatinga, o Guará saiu ganhando quando um problema burocrático inviabilizou o espaço na antiga região e os planos foram readaptados aqui para o Guará, sempre seguindo o plano dos sócios: um ponto de encontro para a comunidade drag e LGBTQIA+ fora do eixo do Plano Piloto. Ainda este ano, o Vale recebeu o Prêmio Jorge Lafond de Arte e Cultura, que homenageia personalidades e aliados da comunidade no Distrito Federal, em cerimônia na Câmara Legislativa.
Nos Estados Unidos, Vanilla Jezz estudava o curso de gastrólogo e a Vale surgiu como a concretização do trabalho de conclusão de curso apresentado ao final da graduação. “Fui em uma boate que era voltada para drags e a primeira coisa que eu vi foi uma drag com uma prótese de silicone simulando seios, preparando um coquetel enquanto batia os peitos e eu fiquei ‘Meu Deus, eu quero isso para a minha vida!"', relembrou aos risos.
Apesar de ter uma longa história dublando e interpretando Gal Costa nos palcos de teatros no Distrito Federal, Gal Maria se assumiu mulher trans há um ano, foi quando ela decidiu começar a cantar os sucessos e até músicas do “lado B” da artista baiana que é sua maior inspiração. Gal Maria já chegou, inclusive, a ser presidente de um fã clube da Gal Costa. O primeiro show ocorreu no aniversário da Gal Costa e, com a morte de ícone da MPB e Tropicália, em novembro de 2022, Gal Maria homenageou a cantora com um tributo, uma das suas primeiras apresentações cantando após a transição de gênero, período em que encerrou a carreira de cover – onde cantava, junto com uma banda, um pouco de tudo da MPB – e iniciou uma nova fase com foco apenas em Gal Costa, que ela diz ser “a maior voz do Brasil”. Em um encontro com a cantora, Gal Costa teria dito que a ela que “se você passar um batom, você fica a minha cara”. Foi quando surgiu a Gal Maria, que agora prepara o show “O amor TRANSformaAdor” e se diverte frequentando, assiduamente, o Vale.
Ela lamenta as raras situações em que as atendentes sofreram ofensas de cunho homofóbico e transfóbico. Apesar disso, ela celebra vitórias maiores: “Por mais que a casa seja uma casa LGBT, a gente tem tido muitos frequentadores heterossexuais e pessoas acima dos 50 anos e isso tem transformado seus pensamentos sobre o que é a arte drag queen e a arte transformista – a arte toca e transforma vidas de uma forma absurda”. E acrescenta: “Algumas das nossas funcionárias trans saíram da rua e hoje são garçonetes aqui e conseguem ter uma vida digna que não precise estar nas ruas que é, infelizmente, o local onde lhes é empurrado socialmente, não porque elas queiram ou escolheram, mas é a vida que a sociedade empurra a elas, o resto que sobra”. Ela conta que muitas candidatas são rejeitadas nas entrevistas apenas por terem feições masculinas. “Trazer de volta o local de trabalho e a dignidade é algo que também faz parte do nosso corpo enquanto existente, porque a gente coloca essas pessoas num foco de humanização, de mostrar que essas pessoas, assim como qualquer outra, também tem seus medos, fragilidades e as suas vulnerabilidades – que essa vulnerabilidade é muito maior do que aquela em uma pessoa branca, cis , hétero que está dentro de casa, protegida pelos pais e que não enfrentam o que as pessoas transsexuais enfrentam tantas vezes”. Ela celebra o caráter transformador do espaço: “Essa é a maior importância do Vale hoje, conseguir transformar uma rota, um mercado, em algo inclusivo e transformador para vidas trans, vidas gays e vidas negras de uma forma que a sociedade ainda não tinha se atendido”.
Davina Ysadora estava sobrevivendo de freelas até ser contratada no Vale.
Uma das funcionárias trans do Vale é a garçonete Davina Ysadora, que relembra o momento em que foi contratada para trabalhar no lounge bar: “Foi ótimo, me chamaram para começar fazendo freelance aqui e quando a Vanilla falou comigo e me explicou que abriram uma nova vaga e estavam precisando, eu fiquei muito feliz com a notícia da contratação, muito feliz! Eu estava precisando do emprego, lógico, mas aqui também é o emprego que eu sempre quis, é um lugar onde eu sou aceita, onde posso me vestir como eu gosto e onde eu estou cercada de pessoas como eu, que me entendem e eu entendo elas. Para mim, aqui é como uma grande família”.
Moradora do Guará, Gal Maria é cantora, artista plástica, frequenta o Vale desde a abertura e estava ansiosa para o lançamento da casa, que aconteceu ainda neste ano de 2023: “É uma conquista muito grande ter um espaço voltado não só para o público LGBT, mas que emprega, exclusivamente, funcionárias transgêneros, drag queens e transformistas, pois há pouco espaço no mercado de trabalho . É uma conquista gigante.”
No final de maio, o Vale recebeu o lançamento da revista DRAGAzine, uma publicação com foco principal no registro histórico e memória da arte transformista na capital federal. Na ocasião, o deputado distrital Fábio Félix (PSOL) esteve presente e reforçou a importância de espaços como o Vale pelo DF: “A gente precisa ter mais nas cidades, e não só no Plano Piloto, espaços que sejam inclusivos à diversidade para a população LGBTQIA+. Óbvio que esse espaço não é só para população LGBTQIA+, mas são espaços onde essa população se sente respeitada, cuidada, que não vai sofrer violência e que todo mundo é bem vindo e acolhido. Fico feliz de que mais um espaço como esse exista também no Guará”.

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