De acordo com as lembranças dos participantes do mutirão que deu origem ao Guará, ao redor do primeiro grupo de casas só havia mato, barro e poeira vermelha. De vez em quando, tinha a companhia de cobras e outros…

De acordo com as lembranças dos participantes do mutirão que deu origem ao Guará, ao redor do primeiro grupo de casas só havia mato, barro e poeira vermelha. De vez em quando, tinha a companhia de cobras e outros animais que habitavam a mata que margeava o córrego Guará, que iam observar o trabalho daqueles pioneiros.
O presidente da Novacap, Rogério Freitas Cunha, acompanhava o mutirão de perto e sorteava as casas em papeis depositados no inseparável chapéu de palha
Água para beber era a trazida de casa em cantis ou garrafões ou a da rede precária instalada para fazer o concreto, mas que servia também para matar a sede. Outra opção era aventurar-se na mata até chegar às então límpidas e despoluídas águas do Córrego Guará, que serviam também para um banho refrescante depois de um dia de trabalho.
A única opção de lazer dos participantes do mutirão e dos primeiros moradores era uma academia de judô, que oferecia a coqueluche da época, as lutas de telequete, febre nas emissoras de TV. Na mesma casa onde funcionava a academia, eram promovidas festinhas nos finais de semana, quando a bebida e a comida eram cotizadas entre os participantes. Afinal, eram amigos e parceiros da epopeia - naquela época costumava-se fazer amizades com vizinhos.
A visita do presidente do Chile, Eduardo Frei, ao mutirão provocou ciumeira no governo e pôs fim ao projeto
“Eu me recordo que, por volta de 1968, o GDF, através da Novacap, ofereceu a nós servidores a oportunidade de construir nossas próprias casas em regime de mutirão. Foi o engenheiro Rogério de Freitas Cunha quem propôs a ideia de que cada servidor ajudasse o outro na construção de casas simples, mas capazes de abrigar a todos. A localização favorável, próxima ao SIA e ao Plano Piloto, tornou a ideia ainda mais atrativa e viável.
Eu sempre acreditei na ousadia do homem e, desde minha chegada a Brasília em 1958, sentia orgulho e coragem dos que traçaram o Plano Piloto. Eu residia em Taguatinga, já casado, e participava do mutirão para construir minha casa. Cada vez que ajudava alguém, acumulava pontos que aumentavam minhas chances de ser contemplado.
A logística envolvia a coleta de materiais, como areia e pedras, além da produção de tijolos na Novacap ou na Velhacap. O trabalho era intenso, envolvendo homens, mulheres e até crianças. Em 30 dias, cada grupo erguia 10 casas, tornando o processo eficiente e produtivo.
Fui contemplado em novembro de 1968, mas o espírito colaborativo continuou entre aqueles que ainda aguardavam. Muitos colegas, porém, recusaram-se a vir para o Guará, expressando desdém pelo mutirão. No entanto, para mim, a experiência foi marcante, proporcionando-me valorização e orgulho em participar da construção de uma cidade com horizontes promissores para o bem-estar familiar.
Para mim, o Guará superou minhas expectativas, proporcionando-me uma vida além do que imaginava. Originário de uma família de poucos recursos, hoje me considero realizado, com uma família feliz, vivendo na melhor cidade do mundo - uma cidade que ajudei a construir”.

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